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Vasculites
(2a Parte)
Dr.
Mauricio Levy Neto - Reumatologista/SP
Continuação da matéria iniciada na edição
anterior,
retirada do site da SBR
A poliarterite nodosa
(PAN), é uma vasculite que afeta indivíduos do sexo masculino
e feminino em proporções semelhantes e em qualquer
idade, a maioria dos casos entretanto se dá entre os 40 e os 60
anos de idade. Em geral o quadro clínico se inicia de forma abrupta
com manifestações sistêmicas importantes como febre,
fraqueza e emagrecimento.
O paciente vai apresentando piora progressiva e acometimentos de múltiplos
órgãos. Na pele aparecem manchas lineares de cor violácea
formando um aspecto de rede, denominada livedo reticularis, podem também
aparecer púrpuras, máculas ou pápulas e são
característicos os nódulos subcutâneos em trajeto
arterial que correspondem a aneurismas arteriais. São freqüentes
obstruções de vasos de extremidades, provocando úlceras
de pele ou gangrena de dedos, muitas vezes sendo necessárias amputações.
Neuropatias periféricas com áreas com alteração
da sensibilidade superficial e deficiências motoras intermeadas
por áreas de sensibilidade normal caracterizam o quadro de mononeurite
multiplex muito comum na doença, embora muitos pacientes apresentem
neuropatia periférica em bota e luva. Fraqueza e dor muscular são
muito comuns. Grande número de pacientes se tornam hipertensos
e muitos deles apresentam insuficiência renal devido ao acometimento
das artérias arqueadas dos rins.
Dor abdominal e alterações do trato digestivo podem aparecer
por envolvimento das artérias que irrigam as vísceras e
órgãos abdominais.
Em pacientes do sexo masculino é comum o aparecimento de dor testicular.
Alterações cardíacas e do sistema nervoso central
são
também achados comuns. Do ponto de vista laboratorial são
encontrados apenas grande aumento do número de glóbulos
brancos
e de plaquetas e evidências de grande atividade inflamatória.
Nenhum exame sugere o diagnóstico, sendo necessário descartar
doenças
infecciosas e neoplásicas neste paciente grave. Alguns doentes
têm o quadro de poliarterite nodosa secundário à infecção
crônica pelo vírus da hepatite B, em geral adquirida em prazo
não superior a um ano do início da vasculite e este quadro
é indistinguível daquele em que o vírus não
está presente.
O diagnóstico é estabelecido pela biópsia de tecido
acometido, seja ele a pele, o músculo, o nervo sural ou o epidídimo.
Neste material
de biópsia é possível detectar a inflamação
destruindo a parede dos vasos, sendo característicos o predomínio
em bifurcações, a presença
de vasos com diversos estágios de lesão, alguns com inflamação
aguda com neutrófilos, outros com infiltrado de mononucleares,
outros
já destruídos e trombosados juntamente com vasos normais
no mesmo local da biópsia. Nos casos em que diversas biópsias
foram realizadas e não se obteve o diagnóstico está
indicada a arteriografia renal e de tronco celíaco e mesentéricas,
onde o achado de microaneurismas são diagnósticos.
Uma vez diagnosticada a doença, esta deve ser tratada com corticóides
e imunossupressores durante período de cerca de um ano, juntamente
com as medidas necessárias para o controle das complicações
neurológicas, cutâneas e renais, principalmente com um controle
eficiente da hipertensão arterial. Embora a doença tenha
um grau de morbidade e mortalidade alto no seu início, após
um ano de tratamento em geral a doença não mais recorre
e o paciente passa a ser seguido apenas devido às seqüelas
da doença, devendo-se ficar atento para a possibilidade de miocardiopatia
isquêmica, agravada pela hipertensão, mesmo naqueles que
não tiveram evidência de acometimento cardíaco durante
o surto de atividade.
Poliangiite Microscópica
A poliangiite microscópica
(PAM) é uma doença muito semelhante à PAN do ponto
de vista epidemiológico, clínico e histopatológico.
Dela se diferencia no entanto por acometer apenas vasos de pequeno calibre
e não ocorrer a formação dos micro-aneurismas. Se
diferencia também pelo acometimento de ramos das artérias
pulmonares que são classicamente poupados na PAN. O acometimento
renal também costuma se apresentar mais como glomerulonefrite,
muitas vezes com síndrome nefrótica, raramente encontrado
na PAN. Do ponto de vista laboratorial a diferença básica
é o achado de anticorpos contra citoplasma de neutrófilos
com padrão perinuclear devido à presença de anticorpos
anti-mieloperoxidase.
Seu diagnóstico é estabelecido também pela biópsia,
de maneira semelhante à PAN e seu tratamento é semelhante.
No seu seguimento entretanto, deve-se estar atento pois a recorrência
da doença com a retirada dos medicamentos é freqüente
sendo muitas vezes necessário manter a medicação
por longo período de tempo.
Doença de
Churg-Strauss
A doença de
Churg-Strauss é também denominada angiite granulomatosa
alérgica devido à alta freqüência de manifestações
alérgicas
que aparecem antecedendo a vasculite. Em geral estas manifestações
são caracterizadas por quadro de asma ou rinite alérgica,
que podem preceder a vasculite às vezes por anos e que muitas vezes
desaparecem com o início da vasculite.
A vasculite é clinicamente muito semelhante à PAM, dela
se diferenciando pela menor freqüência de anticorpos anticitoplama
de neutrófilos,
pelas manifestações alérgicas que a precedem e pelo
aumento do número de eosinófilos no sangue periférico.
O seu diagnóstico é estabelecido na biópsia de tecido
acometido que revela granulomas envolvendo os vasos acometidos e eosinófilos
junto à camada externa
dos vasos e permeando o tecido afetado. Seu tratamento é feito
de forma semelhante ao da PAN e da PAM, com corticoesteróides e
imunossupressores. Recorrências da doença são freqüentes
e complicações digestivas como perfurações
de alças intestinais ou sangramento digestivos podem ocorrer, muitas
vezes exigindo conduta cirúrgica.
Granulomatose de
Wegener
É uma vasculite
sem grande predomínio de sexo, que ocorre em qualquer faixa etária,
sendo mais comum entre os 30 e os 50 anos de idade. Acomete preferencialmente
as vias aéreas superiores, os pulmões e os rins. Em geral
seu início ocorre por quadro de sinusite ou otite que recorrem
espontaneamente após o tratamento, e que evoluem com complicações
progressivas. Acometimento ocular pode ocorrer, com conjuntivite, esclerite
ou formação de granuloma retro-orbitário que provoca
proptose ocular.
Nesta fase o diagnóstico é difícil e doenças
fúngicas de vias aéreas como histoplasmose ou blastomicose
devem ser descartadas. A doença progride com freqüente acometimento
de laringe com estenose subglótica e a seguir costumam aparecer
o envolvimento pulmonar
ou renal.
O envolvimento pulmonar pode se manifestar por aparecimento de infiltrados,
nódulos cavitados ou não e pelo dramático quadro
de hemorragia alveolar. O envolvimento renal pode estar presente mesmo
em pacientes com sedimento urinário normal, mas hematúria
microscópica e de cilindros hemáticos são o achado
mais comum. Evolução com glomerulonefrite crescentica com
perda progressiva da função renal e evolução
para insuficiência renal terminal pode ocorrer. Envolvimento cutâneo,
articular, neurológico periférico ou central, cardíaco
e de trato digestivo ou genito-urinário podem também advir.
A suspeita diagnóstica pode se tornar muito mais consistente caso
o paciente apresente anticorpos anti-citoplama de neutrófilos circulantes,
em especial com o padrão clássico de imunofluorescência
indireta, que representa os anticorpos anti-proteinase-3. Este anticorpo
está presente na grande maioria dos pacientes com granulomatose
de Wegener ativa não tratada e desaparece com o tratamento, servindo
como parâmetro de atividade de doença. A biópsia de
tecido lesado mostrando a presença de granuloma,
vasculite e necrose confirma o diagnóstico.
A biópsia obtida por fibroscopia de seio maxilar ou com exérese
de nódulo pulmonar podem auxiliar na obtenção de
amostra positiva,
pois é comum a realização de inúmeras biópsias
de outros locais com achado de infiltrado inflamatório inespecífico
que não auxiliam no
diagnóstico definitivo.
O tratamento é feito com ciclofosfamida associada a doses altas
de corticoesteróides, tratamento que mostrou melhorar em muito
a sobrevida destes pacientes, nos casos mais leves, sem envolvimento renal
ou pulmonar grave, tem-se tentado utilizar imunossupressores
menos tóxicos como o metotrexate no sentido de se evitar as complicações
a longo prazo da ciclofosfamida.
Púrpura
de Henoch-Schönlein
Também denominada
púrpura anafilactóide, a púrpura de Henoch-Schönlein
pode ocorrer em adultos, mas predomina em meninos e
é a vasculite mais freqüente em crianças e a maioria
dos casos ocorre antes dos 7 anos de idade.
Muitas vezes é precedida por quadro infeccioso de vias aéreas
superiores ou por uso de medicações e se manifesta clinicamente
pelo aparecimento de púrpura palpável que predominam nos
locais de maior pressão hidrostática como os membros inferiores
e nádegas. As lesões são caracteristicamente de cor
vermelho vivo, com ponto central enegrecido e aparecem progressivamente
com tendência a coalescer, nos casos mais graves podem ocasionar
formação de úlceras cutâneas.
Além do quadro cutâneo, podem aparecer dores articulares
ou artrites, dor abdominal ou hemorragia digestiva e envolvimento renal
com hematúria, síndrome nefrótica ou nefrítica
e até insuficiência renal.
Seu diagnóstico é estabelecido pela biópsia de pele
que deve ser examinado por técnica de imunofluorescência,
e demonstra a característica deposição de Imunoglobulina
A (IgA) na parede dos capilares, vênulas e arteríolas.
Na maioria dos casos o tratamento é de suporte, não sendo
necessário terapêutica específica para a vasculite
dado o seu caráter autolimitado, com resolução espontânea
da doença. O uso de antiinflamatórios não hormonais
pode auxiliar no controle de sintomas sistêmicos. Nos casos mais
intensos, em especial aqueles com envolvimento renal ou digestivo importante,
pode ser necessário o uso de corticoesteróides via oral
ou até mesmo em pulsos e até o uso de imunossupressores
ou de gama-globulina podem ser úteis nos casos com má evolução.
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