NΊ 51

Janeiro/Fevereiro/Março/2006

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Artigo Médico:
Artrite Reumatóide (AR) ou Doença Reumatóide (DRe)? - Parte II
 
Editorial
 
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Artrite Reumatóide (AR) ou
Doença Reumatóide (DRe)? - Parte II
 
Artigo redigido pelo Dr. Flávio Monteiro de Barros Maciel, médico do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor)
 
Dando continuidade ao artigo da edição anterior, as drogas modificadoras do curso da doença (DMCD) devem ser indicadas
logo no início do tratamento (dos 3 aos 6 primeiros meses) para todos os pacientes com diagnóstico estabelecido de Artrite
Reumatóide. São elas:
• Hidroxicloroquina - em comparação com placebo, foi eficaz, reduzindo os parâmetros clínicos e laboratoriais (VHS) analisados, embora isoladamente não alterasse a progressão radiográfica. Resultados similares foram observados com cloroquina, que tem a vantagem de ser de baixo custo. São
contra-indicadas em pacientes que apresentam alterações retinianas e de campo visual.
• Sulfasalazina - é considerada mais efetiva que o placebo na redução da atividade da doença, no controle da dor e na avaliação clínica global. Recentemente, confirmou-se sua eficácia clínica e interferência sobre a progressão radiográfica. Está contra-indicada em pacientes com história de hipersensibilidade a sulfas, salicilatos ou qualquer componente da fórmula da sulfasalazina, portadores de porfíria, obstrução
de aparelho digestivo ou geniturinário.
• Metotrexato - é considerado a droga modificadora do curso da doença (DMCD) melhor tolerada. Sua capacidade de reduzir
sinais e sintomas de atividade da AR e melhorar o estado funcional foram relatadas.
Também bloqueia a progressão das lesões radiográficas. Atualmente vem sendo considerado fármaco-padrão no tratamento da AR. Caso não se observe melhora ou controle da doença com a dose inicial, recomenda-se aumento progressivo da dose após cada 6 a 8 semanas de tratamento até alcançar a dose máxima. Está contraindicado em pacientes com insuficiência renal, hepatopatias, etilismo, supressão da
medula óssea e gravidez. Deve ser usado com cautela em pacientes com pneumopatias. A administração do
metotrexato pode ser associada ao uso de ácido fólico (1-2 mg/dia) para minimizar efeitos adversos.
• Leflunomide - melhora a atividade da doença, a qualidade de vida e reduz aprogressão radiológica. Está contra-indicado em gestantes e também em pacientes com insuficiência renal e hepatopatias. Em casos de intoxicação, pode ser utilizada a colestiramina na dosagem de 4 a 8 gramas, 3 vezes ao dia, durante 5 dias.
• Azatioprina - é eficaz, reduz a atividade da doença. Seu perfil de efeitos adversos, entretanto, a coloca como uma alternativa
quando não há resposta a outras DMCD. Contra-indicada em mulheres grávidas.
• Ciclosporina - melhorou o estado funcional dos pacientes com AR, reduziu o número de articulações edemaciadas e
dolorosas, observando-se também a redução da progressão radiológica. A dose pode ser aumentada em 0,5-0,75 mg/kg/
dia se não houver resposta adequada em 8 semanas de tratamento. Novo aumento da dose pode ser realizado na 12ª semana de tratamento, se necessário, até a dose máxima. Está contra-indicada em pacientes com alteração da função renal, hipertensão não-controlada e malignidade. Sua toxicidade, entretanto, limita a utilização em pacientes com doença não-responsiva a outras DMCD. Se houver o desenvolvimento de hipertensão e aumento de creatinina em 30% do valor basal, deve ser realizada uma redução de 25 a 50% da dose. Persistindo a hipertensão e o aumento de creatinina, o tratamento deve ser descontinuado.
Não se demonstrou superioridade significativa de nenhuma DMCD. A toxicidade das drogas, aliada à sua experiência de uso, norteia a escolha, fazendo com que a cloroquina/hidroxicloroquina, a sulfasalazina e o metotrexato sejam as drogas que detêm a melhor relação risco-benefício, sendo assim preferidas no início do tratamento.
Tratamento inicial da AR
• Uso de antiinflamatórios não-esteróides;
• Analgésicos comuns (paracetamol) conforme a necessidade;
• Associa-se DMCD (cloroquina/ hidroxicloroquina, ulfasalazina,
metotrexato), preferencialmente, em até 3 meses após o início da doença. Naqueles pacientes com pior prognóstico, recomendase o uso do MTX;

• Caso necessário, considere o uso de glicocorticóide em baixa dose, VO, ou infiltração intra-articular com corticóide de depósito.
Tratamento evolutivo
Não havendo resposta adequada ao tratamento inicial, incluindo metotrexato em doses adequadas, utiliza-se:
• Associação de MTX com cloroquina ou sulfasalazina, ou a associação das três drogas. Em caso de contra-indicação,
intolerância ou ineficácia ao uso do MTX:
• Leflunomide isoladamente,
• Azatioprina isoladamente ou
• Ciclosporina isoladamente.
Se não houver resposta a pelo menos dois esquemas de tratamento anteriores, utiliza-se as seguintes associações:
• Metotrexato + ciclosporina ou
• Metotrexato + leflunomide.
Na presença de manifestações extraarticulares graves, pode-se utilizar altas doses de glicocorticóide (1-2mg/kg/dia, VO ou
pulsoterapia) e/ou ciclofosfamida (VO ou pulsoterapia).
Agentes biológicos
Avanços biotecnológicos recentes permitiram uma melhor compreensão da fisiopatogenia da Artrite Reumatóide e a produção de agentes biológicos geneticamente
construídos e dirigidos contra elementos considerados com papel central na instalação e progressão da Sinovite Reumatóide (e a conseqüente destruição cartilaginosa e óssea), como as citocinas IL-1 e TNF-a.
Atualmente, encontram-se disponíveis comercialmente no Brasil o infliximab e o etanercept, bloqueadores do TNF-a, e o adalimumab.
Já foi aprovado para terapêutica da AR, na Europa e nos Estados Unidos, um antagonista da IL-1 (anakinra). Outros agentes biológicos com diferentes mecanismos de ação estão em fase de testes clínicos, como o abatacept. Embora a eficácia clínica e aparente segurança do infliximab, etanercept, adalimumab e de outros novos produtos tenham sido demonstradas em ensaios clínicos com até dois anos de
duração, é conveniente aguardar resultados de estudos a longo prazo. Seu custo elevado e administração por via parenteral limitam
sua utilização de forma mais ampla. Esses agentes estão indicados para os pacientes que persistam com atividade da doença, apesar do tratamento com pelo menos dois dos esquemas propostos nos itens anteriores.
Recomenda-se que o uso desses fármacos seja indicado e monitorado por um reumatologista.
Tratamento cirúrgico
Pode haver indicação de tratamento cirúrgico em pacientes portadores de AR em situações onde medidas conservadoras não produzam controle dos sintomas e/ou não permitam níveis mínimos aceitáveis de AVD (trabalho, atividades domésticas, deambulação por 30 minutos, independência).
No caso de indicação de tratamento cirúrgico, este deve ser feito precocemente. Não se deve aguardar comprometimento
de várias articulações para então definir intervenção cirúrgica. Artroplastias de quadril e joelho indicadas precocemente apresentam resultados melhores que as indicadas
em fases tardias. Operações bilaterais devem
ser feitas na mesma seção cirúrgica em caso de deformidades acentuadas de quadris e joelhos. Testes de avaliação de qualidade de
vida são altamente recomendáveis para avaliação da indicação cirúrgica dos pacientes.
Os tipos de tratamento cirúrgico recomendado são sinovectomia: Sinovite por mais de 6 meses, resistente ao tratamento conservador e ausência de instabilidades grosseiras;
correção de tendões + sinovectomia; debridamento articular + ressecção artroplástica; artrodese e artroplastias totais.
Contra-indicações: em mulheres grávidas ou que estejam amamentando, em vigência de infecção ativa ou em pacientes com alto risco para o desenvolvimento de infecções (úlcera
crônica de membros inferiores, artrite séptica nos últimos 12 meses), infecções pulmonares recorrentes, esclerose múltipla e em pacientes com doenças malignas atuais ou passadas.

Fonte: Consenso sobre Artrite Reumatóide da
Sociedade Brasileira de Reumatologia.